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Os imigrantes Alemães

Logo após a Independência do Brasil, em 1822, as primeiras colônias de imigrantes alemães foram fundadas no Rio Grande do Sul. A primeira delas foi a atual cidade de São Leopoldo, em 1824. O governo imperial tinha como objetivo colonizar a região e desenvolver a agricultura e, por isso, incentivou a vinda de imigrantes alemães, que se realizou de forma contínua por mais de um século (1824-1937).

Fonte:http://www.educacional.com.br/reportagens/japao/popups/alemanha.asp

Os alemães em São Paulo

Os colonos germânicos de São Paulo, apesar de terem enfrentado mais obstáculos que seus conterrâneos do Sul do país por causa da falta de núcleos comuns, tiveram papel fundamental para o desenvolvimento da capital paulista no século XIX.

Capa do livro Uma São Paulo Alemã, de Sílvia Cristina Lambert Siriani.

Ao contrário do que pode parecer, São Paulo também recebeu inúmeros imigrantes alemães durante o século XIX. Parte dessa história é resgatada no livro Uma São Paulo Alemã, de Sílvia Cristina Lambert Siriani. A autora conta que esses imigrantes não chegaram a criar um bairro próprio, como o Liberdade, que concentra a colônia japonesa, ou o Bexiga, que reúne italianos. “Talvez por isso o historiador perca um pouco a dimensão da importância da vinda dos alemães para São Paulo, que foi de extremo valor para a cidade, apesar de esses imigrantes perderem em quantidade para outros povos”, diz.

A presença desses colonos foi marcante tanto para o desenvolvimento do comércio e da indústria local quanto para o processo de urbanização. Os alemães foram pioneiros em uma série de atividades, como na indústria de fundição de ferro e na produção de chapéus — até sua chegada, não havia fábrica desse produto em São Paulo. Também foram importantes no setor de tipografia, com as editoras. “Alguns vinham como mão-de-obra especializada, contratados pelo governo provincial. Foram imprescindíveis, por exemplo, na urbanização de São Paulo, pois eram engenheiros e mestres-de-obras numa época em que não existia esse tipo de formação no Brasil”, conta Siriani.

Eles contribuíram muito para a área sociocultural com a fundação do Clube Germânia em meados de 1870 (hoje Clube Pinheiros), a Sociedade Filarmônica Lira (localizada no Campo Belo) e o Instituto Martius-Staden de Ciências, Letras e Intercâmbio Cultural Brasileiro-Alemão.

A chegada

“A chegada ao Brasil era um susto. Eles desembarcaram e se viram cercados pela Mata Atlântica”, relata Siriani. Os grupos católicos tiveram maior facilidade de adaptação que os luteranos, que mantiveram sua fé a duras penas, já que aqui não existiam templos ou pastores para a celebração dos cultos. A historiadora diz que muitos pais acabavam batizando os filhos na Igreja Católica por falta de opção. “Eles tiveram problemas para aprender nosso idioma, compreender os traços culturais locais e as leis e, principalmente, por causa da desconfiança da população local, que criou estereótipos em relação ao imigrante (explosivo, beberrão, fanfarrão, entre outros)”, explica.

A questão do idioma foi um fenômeno comum a todos os imigrantes germânicos da segunda geração e das subseqüentes. Eles perderam o contato com os dialetos falados por seus ancestrais. Ainda hoje, há descendentes desses imigrantes residindo em chácaras da região do Planalto Paulistano (Santo Amaro, Itapecerica, Parelheiros e Embu) que sequer conhecem a origem de seu sobrenome.

“Para os alemães que permaneceram na capital, o fenômeno foi o mesmo”, diz Siriani. Ela explica que a situação só melhorou com a criação das primeiras escolas alemãs da cidade de São Paulo (por volta de 1870), que facilitou a permanência do idioma no seio das famílias e o intercâmbio cultural.

Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/alemanha/saopaulo.asp

Chegando a São Leopoldo

A primeira leva de colonos alemães — composta de 39 pessoas de nove famílias — chegou ao Rio Grande do Sul em 1824, desembarcando em 25 de julho na colônia de São Leopoldo, antiga Real Feitoria de Linho Cânhamo. Portugal, que tinha sua navegação baseada em navios de vela, precisava de muitas cordas para eles. Então, em muitos lugares, havia feitorias que produziam a cordoalha necessária, tirada do linho cânhamo. A feitoria que abrigou os alemães ficava exatamente onde é hoje a cidade de São Leopoldo. “No lugar não existia nada. O governador da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, trouxe os primeiros colonos e os colocou na única construção que existia no local. Quando ela foi fechada, dois meses antes, abrigava 321 escravos. Os alemães foram albergados lá até que ganhassem suas terras e começassem a trabalhar”, esclarece o historiador.

A partir de São Leopoldo, as colônias alemãs se espalharam primeiro pelas áreas mais próximas, atingindo depois zonas mais isoladas. Geralmente, as colônias — principalmente as primeiras — situavam-se à beira de rios. Isso tinha uma grande importância estratégica: em uma época em que os caminhos eram muito precários, os rios serviam como “estradas fluviais” para o recebimento de equipamentos e o escoamento da produção.

De maneira geral, a colonização obedeceu a uma ocupação sistemática. Apesar da interrupção da imigração e da colonização, patrocinadas pelo governo central a partir de 1830 (a prática seria retomada mais tarde), o governo da Província (em alguns períodos) e particulares dedicaram-se a criar colônias e vender os lotes.

No último decênio do século XIX, não existiam mais terras à venda nas margens inferiores dos rios, e a serra já estava ocupada pelos italianos (que começaram a chegar na década de 70). Iniciou-se, então, a colonização do Alto Uruguai, com colônias que iam desde Marcelino Ramos até o Rio Ijuí. Nessa etapa, foram criadas quase que exclusivamente colônias particulares, com algumas exceções, como Sobradinho (1901) e Erechim (1908), que foram patrocinadas pelo estado, e Ijuí (1890), criada pela União.

Outra característica dessa fase é que, enquanto nas colônias particulares predominavam grupos de uma mesma etnia, nas oficiais havia a preocupação de misturar elementos de diferentes origens. Isso foi feito, por exemplo, em Ijuí, que desde sua criação recebeu colonos das mais variadas procedências.

As novas colônias que surgiram a partir do núcleo inicial de São Leopoldo não foram, entretanto, ocupadas apenas por imigrantes alemães. Houve um processo a que o historiador Jean Roche — outro estudioso da imigração alemã para o Rio Grande do Sul — deu o nome de “enxamagem”. Os filhos de colonos (ou até mesmo os colonos) das zonas mais antigas saíam em busca de terras nas novas regiões e, com isso, iam ocupando boa parte do Rio Grande do Sul. Quando, depois de 1914, não existiam mais áreas disponíveis no estado, esses colonos passaram a migrar para Santa Catarina e Paraná e, de lá, foram para o Mato Grosso.

Mudança de mentalidade

Mesmo com todas as dificuldades que os povos imigrantes encontraram nos novos países — como, por exemplo, diferenças de idioma, cultura e clima —, os alemães promoveram uma verdadeira mudança ao instalarem-se no Brasil.

A primeira delas, segundo o historiador Telmo Lauro Müller, deu-se no aspecto econômico, pois, além de colonos, eles eram artesãos. “Os sobrenomes eram baseados nas atividades que as famílias tinham na Alemanha: Schmidt, ferreiro; Müller, construtor de moinhos d’água; Schreiner, construtor de móveis; Schneider, alfaiate; Shumacher, sapateiro; Wagner, que faz carretas”, aponta. Todas essas famílias tomaram conta do Vale dos Sinos, criando um setor industrial que é hoje o segundo mais importante no Rio Grande do Sul.

Na Alemanha, já havia escolas. Chegando aqui, diz Müller, muitas famílias abriram suas próprias instituições de ensino, já que no interior do Brasil elas eram inexistentes. Assim, contribuíram enormemente para a cultura. “Não é à toa que o Rio Grande do Sul tem um dos menores índices de analfabetismo do país”, afirma.

Em seu país de origem, essas famílias também já contavam com várias sociedades de canto, tiro e ginástica, que também acabaram sendo trazidas para o Brasil. O historiador relata que a primeira sociedade alemã no Brasil data de 1858 e está em São Leopoldo — é a Sociedade de Canto Orfeu, que funcionou ininterruptamente, mesmo durante as grandes guerras. Em Porto Alegre, surgiu a Sociedade de Ginástica Porto Alegre — Sogipa —, a primeira sociedade de ginástica do estado.

“Todas elas tinham nomes alemães. Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, houve um período conhecido como nacionalização. Estrangeiros, principalmente alemães, não eram muito bem vistos, chegando a ser perseguidos. Sua língua e o ensino dela, seus cultos e jornais foram todos proibidos, embora toda essa gente tenha contribuído tanto para o país”, lamenta.

Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/alemanha/saoleopoldo.asp

História de promessas não cumpridas

Atraídos por falsas promessas do Império brasileiro, os alemães criaram, à sua maneira, um ambiente propício para se desenvolverem no país.

Casa da Feitoria do Linho-Cânhamo, construída em 1788, foi o primeiro abrigo dos imigrantes alemães que chegaram em São Leopoldo.

A história da imigração alemã para o Brasil começou em 1822, quando o major Jorge Antonio Schaffer foi enviado por Dom Pedro I para a corte de Viena e demais cortes alemãs com o objetivo de angariar colonos. Outro motivo era conseguir soldados para o Corpo de Estrangeiros, situado no Rio de Janeiro. “Ao proclamar a independência do Brasil, Dom Pedro deparou com o seguinte problema: a falta de defesa da capital, o Rio de Janeiro, já que Portugal tinha levado embora todos os soldados”, conta o historiador Telmo Lauro Müller, diretor do Museu da Imigração, em São Leopoldo, e um dos grandes conhecedores da história da imigração alemã para o Brasil.

Müller diz que outra preocupação que havia na época era evitar que mais escravos fossem trazidos ao país, pois o número destes já se igualava ao de não-escravos, podendo representar perigo para o status quo.

Dom Pedro preocupava-se em povoar o Rio Grande do Sul com pessoas que soubessem trabalhar na terra.

Em seus primeiros anos de trabalho, Schaffer convocou principalmente soldados e alguns colonos; mas, à medida que o Império brasileiro foi estabilizando-se, passou, efetivamente, a se preocupar em trazer mais colonos. Para isso, anunciava aos interessados que, aqui, eles receberiam 50 hectares de terra, juntamente com vacas, bois e cavalos; auxílio de um franco por pessoa no primeiro ano e de cinqüenta cêntimos no segundo; isenção de impostos e serviços nos primeiros dez anos; liberação do serviço militar; nacionalização imediata; e liberdade de culto.

Daquilo que foi oferecido, ao menos a primeira promessa superou as expectativas: em vez de 50, os colonos receberam, no início, 77 hectares. Já as duas últimas nunca poderiam ser cumpridas, pois contrariavam a Constituição brasileira. “Os imigrantes trouxeram uma nova língua, uma nova cultura, uma nova economia e uma nova religião, a evangélica luterana”, diz Müller. “A promessa de liberdade religiosa foi quebrada, mas a Constituição imperial, em seu artigo quinto, dizia que outras religiões seriam toleradas, desde que praticadas em casas que não tivessem aparência de templo, ou seja, não podiam ter cruzes, sinos ou algo que as caracterizasse como igrejas. Então, eles se reuniam em galpões”, conta.

Das outras promessas, algumas também não foram cumpridas integralmente. Mas o que interessava realmente aos colonos era a posse da terra, e isso, ao menos, eles obtiveram, ainda que à custa de grandes sacrifícios.

“As viagens para o Brasil eram verdadeiras tragédias. Quando eram muito boas, duravam dois meses. Mas muita gente viajou três, quatro meses ou até mais”, conta Müller. O historiador esclarece que os primeiros imigrantes desembarcaram no Rio de Janeiro e foram recebidos pelo casal imperial, já que Leopoldina era uma princesa germânica, filha de Francisco II, último imperador do Sacro-império Romano Germânico, outro motivo para Dom Pedro ir buscar imigrantes naquela região.

Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/alemanha/promessas.asp

A imigração alemã

A imigração alemã


por Diogo Dreyer da Silva

Vindo para o país inicialmente como soldados e colonos, os alemães venceram grandes dificuldades e marcaram de maneira muito significativa a história do Brasil. Conheça a trajetória desses imigrantes para se firmarem aqui e saiba como sua tradição está presente nos mais diversos aspectos da vida brasileira.

Quadro de Ernst Zeuner sobre a chegada da primeira leva de imigrantes alemães às margens do rio dos Sinos.

São Leopoldo, no Vale dos Sinos, Rio Grande do Sul, foi o ponto de partida de uma luta pela sobrevivência que mudou a história do Brasil e que começou em 1824 com a fundação da primeira colônia de imigrantes alemães no país. Na época, o Brasil havia acabado de se tornar independente de Portugal. Então, por influência de José Bonifácio, o então imperador Dom Pedro I decidiu inaugurar, com esses imigrantes, um programa de imigração para o Sul, movido por questões de segurança nacional, diante das sucessivas disputas territoriais naquela então erma região fronteiriça.

Naquela época, a Alemanha estava dividida em uma porção de reinados, principados e ducados, todos independentes, mas unidos precariamente pelo idioma. Ela viria a ser unificada por Bismarck apenas em 1871.


Nos primeiros 50 anos de imigração, vieram para o Rio Grande do Sul entre 20 e 28 mil alemães e quase todos se dedicaram à colonização agrícola.

Essa colonização alterou a ocupação de espaços, levando gente para áreas até então desprezadas. Introduziu também outras grandes modificações. Até aquele momento, a classe média brasileira era insignificante e se concentrava nas cidades. Os colonos alemães acabaram formando uma classe de pequenos proprietários e artesãos livres em uma sociedade dividida entre senhores e escravos.

Desde a fundação de São Leopoldo, aproximadamente 300 mil alemães vieram para o Brasil. Depois de colonizar o Rio Grande do Sul, ainda no século 19, eles subiram para Santa Catarina, que atualmente tem a maior população de descendência alemã — mais de 20% do total —, e seguiram rumo ao Espírito Santo, marcando presença no Paraná e, em menor escala, no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Pelo caminho, além de semearem uma cultura marcante, deixaram descendentes e grandes lideranças em todas as áreas da vida nacional. Fazem parte dessa galeria o ex-presidente Ernesto Geisel, empresários como Norberto Odebrecht e os Gerdau, jogadores de futebol como o tetracampeão Dunga e até estrelas como Xuxa Meneghel e Gisele Bündchen.

Fonte: http://www.educacional.com.br/reportagens/alemanha/default.asp

O difícil começo da imigração alemã

O DIFÍCIL COMEÇO

Expulsos pelas dificuldades de sua pátria, os imigrantes encontraram novos problemas no Brasil Império
Na primeira fase da imigração alemã ao sul do Brasil, entre 1824 e 1830, cerca de 40 navios atravessaram o Atlântico. Desses veleiros desembarcaram aproximadamente cinco mil pessoas. As viagens eram longas e penosas, e até alguns naufrágios foram registrados. Levava-se cerca de cem dias para cruzar o oceano. As primeiras luzes dos portos brasileiros eram saudadas com entusiasmo e a descida à terra merecia muita comemoração.

Expulsos de seu quinhão pelas dificuldades que a Europa vivia, os imigrantes passaram a não ser bem-vindos também em terras brasileiras. Depois da primeira leva de emigrantes em 1824, em 1830, entraram no Rio Grande do Sul apenas 117 pessoas e nos anos seguintes a imigração parou. No final de 1830, o imperador Dom Pedro I vedou qualquer subvenção à entrada de estrangeiros. E, em 1835, explodiu a Revolução Farroupilha, que por dez longos anos interrompeu a imigração. As novas levas de estrangeiros só chegariam com o final dessa guerra, em 1845.

Inicialmente, os imigrantes alemães se estabeleceram ao norte do Rio dos Sinos, avançando depois ao longo dos vales do Caí e Taquari.

Havia forte presença de evangélicos em cidades como São Leopoldo, Campo Bom e Nova Petrópolis. De Porto Alegre a Linha Santa Cruz (atual município de Santa Cruz do Sul), estendeu-se uma faixa de comunidades, geralmente pequenas, com templos modestos, onde as pessoas se reuniam aos domingos para batizar os filhos e ouvir a palavra de Deus.

O Império brasileiro, no entanto, fazia restrições às práticas evangélicas. A Constituição de 1824 determinava, em seu artigo 5º, que o catolicismo era a religião oficial do Estado. Isso significava, por exemplo, que só católicos podiam ser eleitos ou nomeados para cargos públicos, ou que apenas as suas comunidades recebiam verbas públicas.

Os evangélicos não podiam enterrar seus mortos nos cemitérios católicos e eram obrigados a conseguir cemitérios próprios, o que nem sempre era fácil.

Ao longo do século XIX, muitos conflitos foram gerados para reverter essa situação, e somente em 1863 o governo imperial concedeu aos pastores evangélicos devidamente registrados os mesmos direitos de que gozavam os católicos quanto ao registro de nascimento, casamentos e óbitos. Nessa época, as comunidades evangélicas somavam cerca de 25 mil membros no Rio Grande do Sul.

A proclamação da República, em novembro de 1889, ajudou a impulsionar a obtenção de conquistas há muito desejadas: oficiar cultos em plena liberdade, fazer o registro civil e possuir cemitérios públicos – tudo isso sem o medo de sofrer multas e perseguições, como antes.

1856: NASCE A COMUNIDADE

EVANGÉLICA DE PORTO ALEGRE

O templo só ganhou torre e sinos quase quarenta anos depois de sua construção
Em 1856, viviam em Porto Alegre cerca de 3 mil imigrantes e descendentes de alemães. Aproximadamente a metade destes era evangélicas, e muitos, a essa altura, já estavam, deixando para trás a sua primeira moradia. Tinham se transformado em comerciantes que vinham com freqüência à capital e para ela acabaram se mudando. Como protestantes num império constitucionalmente católico, a eles era permitido praticar o seu credo em cultos domésticos e em prédios apropriados, ou seja, sem identificação externa. As capelas, portanto, não possuíam torres ou sinos.

Os evangélicos de Porto Alegre resolveram que era chegada a hora de se organizar. Em 17 de fevereiro de 1856, fundaram a sua Comunidade Evangélica, sendo o seu primeiro pastor Erdmann Wolfran. No dia 24 daquele mês, solicitaram ao presidente da província, o Barão de Muritiba, licença para que pudessem celebrar as “cerimônias do seu rito”. Esse documento, ainda hoje nos arquivos da C.E.P.A., é, por assim dizer, a “certidão de batismo” da igreja evangélica na cidade. Diz ele:

“Os protestantes residentes nesta capital, desejando celebrar com mais regularidade os santos ofícios de sua religião, reuniram-se hoje em grande assembléia e resolveram formar uma comunidade evangélica, como o seu culto doméstico ou particular que terá lugar todos os domingos e dias santos, no templo provisório, estabelecido na casa nº 47 da Rua Nova da Praia, sob a direção do reverendo pastor evangélico Erdmann Wolfram e dos abaixo assinados mesários que todos, por voto unânime da mesma assembléia, foram eleitos para esse fim, e, já que a Constituição Política do Império permite e tolera o exercício de todas as religiões, vêm os abaixo-assinados, como representantes e órgãos da referida comunidade, antes V. Exa. Solicitando, em nome dela, a alta aprovação e licença de V. Exa. Para que ela possa continuar a celebrar as cerimônias do seu rito na forma expressada.”

A licença foi concedida pelo barão em 1º de março, sendo, porém, “proibido aos pastores fazerem casamentos de católicos com protestantes, pois que só podem ser feitos por sacerdote católico, autorizado para isso com licença do ordinário.”

Segundo o historiador Sérgio da Costa Franco, eram 49 as famílias que estruturaram a C.E.P.A.. Outro conceituado historiador porto-alegrense, Leandro Telles, ressalta que neste grupo havia nomes como Phillip von Normann, que chegara ao Rio Grande do Sul em 1848 e foi o primeiro presidente da recém-fundada comunidade. Normann ergueu uma das mais importantes edificações da capital, o Theatro São Pedro, em 1858, e também deixou seu nome registrado como o primeiro professor da comunidade.

O primeiro local de reuniões das famílias evangélicas foi uma “casa de oração” localizada na Rua Nova da Praia, atual avenida Sete de Setembro, mas já se procurava um lugar para a futura sede. Num terreno adquirido na rua Senhor dos Passos construiu-se a igreja, que, ainda sem poder ter a forma extrema de templo, foi inaugurada em 8 de janeiro de 1865.

A torre só pode ser erguida depois da proclamação da República, em 1889, quando a Constituição brasileira determinou a separação entre Igreja e Estado.

No dia 7 de setembro de 1902 a torre em estilo gótico foi inaugurada, e três anos depois, em julho de 1905, os sinos receberam a consagração. A Paróquia Matriz de Porto Alegre finalmente ganhava a feição com a qual se manteria até a década de 60.

A FORÇA DO ESPÍRITO COMUNITÁRIO

A comunidade Evangélica nasce do desejo dos membros, e não por iniciativa de autoridades eclesiásticas
Somente 32 anos após a chegada dos primeiros imigrantes constitui-se a Deutsche Evangelische Gemeinde de Porto Alegre, em 1856. Notável é que esse fato aconteceu por iniciativa dos próprios evangélicos, e não de um missionário ou autoridade eclesiástica. Manifesta-se assim um forte espírito comunitário ou gregário de “comunidade alemã”.

Dois anos depois foi fundada a Associação Beneficente Alemã, Deutscher Hilfsverein, que mais tarde se transformou em Associação Beneficente Educacional (ABE), mantenedora do Colégio Farroupilha.

A ABE de então destinava-se a suprir as necessidades básicas da comunidade alemã, como escola, igreja, hospital, clubes, assistência social e profissional e cemitério. Noventa por cento dos membros da Associação eram evangélicos, muitos sem confissão definida e portanto abertos a todos os credos.

Predominavam idéias de liberalismo e também da maçonaria alemã. Os líderes eram muitas vezes os mesmos que dirigiam a Comunidade Evangélica, a Associação, o Colégio Hilfsvereinschule, o clube e o hospital. O influente jornalista Carl von Koseritz propunha o progresso da civilização e o germanismo local. Nesse contexto cabia à comunidade reunir os evangélicos, construir sua igreja, manter a escola e o cemitério e convocar um pastor capaz de orientar este povo de acordo com o Evangelho.

Essa tarefa não foi fácil devido à falta de pastores e líderes preparados e capacitados. Só em 1911, a Igreja de Porto Alegre filiou-se ao Sínodo Rio-grandense, que havia sido fundado em 1886 e congregava as comunidades evangélicas alemãs num corpo eclesiástico de orientação comum nos fundamentos da Reforma Luterana.

Durante a I Guerra Mundial houve uma estagnação das atividades da Comunidade, bem como nas outras organizações de origem germânica. No entanto, os cultos e ofícios religiosos continuavam sendo realizados. No ano de 1914 veio à Igreja da Paz, no bairro Navegantes, em 1921 para a Igreja Matriz um homem que com sua liderança competente exerceu grande influência tanto nos caminhos da Comunidade Evangélica como em toda a vida cultural da “colônia alemã”, o pastor Karl Eduard Gottschald. Ele tinha sólida formação teológica, ainda na linha liberal, boa formação cultural, era bom orador, organizador e líder comunitário. Naqueles anos a vida da comunidade floresceu em todas essas áreas, se consolidou e se ampliou com a fundação da Igreja Martin Luther, em 1936, e da sua escola, em 1931.

Ao lado do pastor Gottschald havia um líder leigo de igual envergadura, o médico Frederico Falk, presidente da Comunidade de 1913 a 1938. O pastor Gottschald soube enfrentar com sabedoria e habilidade também as influências do nazismo nos anos após 1933 e as pressões da campanha de nacionalização, promovida pelo governo brasileiro, que dificultavam as atividades dos alemães e seus descendentes. A deflagração da II Guerra Mundial e a inimizade com os países do Eixo puseram fim a esse período histórico. A Comunidade Evangélica de Porto Alegre deixou de ser Deutsche Evangelische Gemeinde, o uso da língua alemã nos ofícios foi relegado a segundo plano e após 1945 foi preciso construir muitas atividades de forma nova.

A GRANDE EXPANSÃO

Na segunda metade de nosso século, a C.E.P.A. espalha suas paróquias por toda a cidade e amplia seu sentido missionário
Após a Guerra, tanto a IECLB quanto a C.E.P.A. voltaram-se decididamente para a realidade brasileira e entraram em maior cooperação com as outras igrejas evangélicas através da Confederação Evangélica do Brasil. Oura conseqüência foi que as igrejas do Sul deram maior atenção aos estados do Brasil Central e do Norte. O número de pastores vindos da Alemanha regrediu e os jovens formados na Brasil foram ocupando as vagas. A Igreja foi adquirindo outra imagem.

Durante as décadas de 1950 e 60, a Comunidade Evangélica experimentou uma fase de revitalização e de expansão extraordinárias. Pela primeira vez foi feito um plano que previa a presença da C.E.P.A. em todos os bairros onde houvesse maior concentração de evangélicos luteranos. Também foram fixados pontos de irradiação missionária.

Em 1956 foi fundada a Paróquia São Mateus, na zona sul. No mesmo ano foi criado o pastorado estudantil para a juventude universitária. Em 1959 a escola da Paróquia Martin Luther foi transformada em Ginásio Pastor Dohms. No ano de 1963 foi criado o Centro Social João Kluwe Jr., no bairro Três Figueiras, e junto com este a Paróquia São Lucas, que atendia as vilas do leste da capital.

No mesmo ano, ainda se fundaram, no Jardim Itú, zona norte, o Centro Social Mathilde Renner e a Paróquia do Salvador, que mais tarde abriria a Escola do Salvador. Em 1971/72 foi construído o Centro Comunitário Piratini, em Alvorada, onde depois se desenvolveram a Casa da Criança e a Paróquia Maria Madalena. Em 1975 começava a Missão Urbana, que daria origem à Paróquia São Marcos.

A maior obra destes anos, porém, foi a construção do templo da Reconciliação e do Centro Evangélico, na rua Senhor dos Passos, no centro da cidade. Toda a Comunidade Evangélica de Porto Alegre se mobilizou para concluir essa obra, inaugurada em 1970. Paralelamente, ocorria um trabalho de despertamento e aprofundamento da fé. Para tanto, contribuiu decisivamente o maestro Leo Schneider, com o trabalho da Escola dominical para crianças e adultos. Também os pastores americanos, como Olson, trouxeram valiosa contribuição. Os grupos de senhoras- as OASEs – ajudaram incansavelmente.

Em 1960 a Comunidade institucionalizou e ampliou o serviço social, a diaconia, criando uma vice-presidência especial e encarregando o pastor Albert Bantel e a assistente social Emília Lamprecht de desenvolver esse trabalho, com atenção primordial às crianças.

Desde sua fundação, já se cuidava dos necessitados, mas então as atividades foram ampliadas a todos as pessoas carentes. Esse desenvolvimento fez com que, em 1980, todas as paróquias tivessem alguma obra social.

Nos anos 80 aconteceram duas iniciativas que influenciaram toda a vida da Comunidade: a primeira foi a descentralização administrativa, transferindo para as paróquias a responsabilidade pelo trabalho e finanças. Essa medida esvaziou a administração central, mas privilegiou a vida nas bases. A segunda iniciativa foi a criação do Movimento de Casais, que fortaleceu a vida familiar e dinamizou a participação dos leigos na vida da Igreja.

Podemos constatar, pois, que além da expansão exterior houve também um aprofundamento da consciência confessional na tradição luterana e um despertamento para a dimensão missionária na grande cidade.

Pastor Em. Godofredo Boll
Porto Alegre/RS
Entre 1956 e 1986 atuou em várias Paróquias da CEPA: São Mateus, PEPA, São Lucas e Matriz. Seu envolvimento ecumênico o levou a representar a IECLB em diversos organismos nacionais e internacionais, CONIC, por exemplo. Este artigo foi produzido por ocasião do lançamento da revista dos 140 anos da CEPA.

Fonte: http://www.mluther.org.br/Imigracao/nossas_origens.htm

A imigração alemã no Rio Grande do Sul

1824: Antes e Depois
A imigração alemã no Rio Grande do Sul
Prof. Telmo Lauro Müller,  Museu Histórico Visconde de São Leopoldo

Antes

ANTES 1824 DEPOIS

A imigração alemã no Rio Grande do Sul

*Telmo Lauro Müller

      A propósito dos 180 anos

         É comum dividirmos a História de um país, de um Estado ou de um município em partes, tomando um fato como divisor de águas. Assim, a mais conhecida divisão tem a data de nascimento de Jesus Cristo como base. A História Geral é dividida em “Antes de Cristo” (AC) e “Depois de Cristo” (DC). Fatos marcantes na vida de alguns povos ou países, certamente, fazem subdivisões.

         No caso particular do Rio Grande do Sul, há uma data tão importante, que pode servir de divisor: a chegada dos primeiros imigrantes alemães à então Província de São Pedro do Rio Grande, no dia 25 de julho de 1824. O ano de 1824 é, pois, o momento que nos permite fazer a divisão em “antes” e “depois”. Isso não significa que essa data esteja indicando que “antes” foi melhor ou pior; que “depois” foi melhor ou pior. A data revela mudanças acentuadas que alteraram a seqüência dos fatos. Assim, “antes” temos a civilização portuguesa, por muitos chamada de açoriana, tendo o gado e toda gama de atividades decorrentes como centro de tudo. É o gaúcho, dono da campanha, região de onde nunca saiu porque sua vida era o gado, e gado é criado no campo. “Depois” a civilização alemã marca presença e irá caracterizar boa parte do Rio Grande para sempre.

         Este folheto pretende contar um pouco da História riograndense “depois” de 1824, a propósito dos 180 anos da imigração alemã, festejados neste ano de 2004. Comparados com os anos de existência de cidades alemãs como Koblenz, Trier ou Bonn, com mais de 2.000 anos de fundação, os 180 anos de São Leopoldo, primeiro núcleo de alemães no Rio Grande, representam apenas uma pontinha. Mas nem por isso menos importantes. Justamente o que se construiu pelo Rio Grande a fora nesse curto lapso de tempo é tão marcante a ponto de merecer este registro sintético.

Razões da emigração na Alemanha

         Quando se fala em imigração alemã há 180 anos, é bom pensar como eram as coisas naquele tempo, na Alemanha, no Brasil, no Rio Grande do Sul.

         O Brasil tinha meia dúzia de centros notóricos, como Rio de Janeiro, a capital do recém-criado Império Brasileiro; Salvador, antiga capital; Recife, São Paulo e núcleos mais provincianos como Porto Alegre. O Brasil era movido pelos escravos. De seu suor, sangue e lágrimas vivia a jovem nação. Açúcar, gado, cacau, pedras preciosas, tudo nascia de suas mãos. E como eles fossem em maior número do que os homens livres, é provável que esse fato levasse o Governo a pensar em imigrantes de outra categoria. O Rio Grande de São Pedro tinha Porto Alegre como capital. Ainda marcavam presença Viamão, Rio Pardo, Pelotas e Rio Grande, para citar apenas alguns núcleos. O gado constituía a grande riqueza, indelevelmente ligada à História do extremo sul. Aqui também o braço servil era uma realidade.

         Falar na Alemanha da época requer registrar que ela não existia como unidade nacional. Havia reinados, principados, ducados, independentes entre si. O que identificava a todos, e daí falarmos em Alemanha, era a língua. Na Idade Média, predominavam os dialetos. Ainda hoje a Alemanha é rica em dialetos. Com Lutero, ao traduzir a Bíblia para que os alemães pudessem lê-la, criou-se a língua alemã ou, simplesmente, o alemão. Ao uniformizar o idioma, havia um elo comum entre todos os departamentos políticos vindos da Idade Média. Logo, ao falarmos em imigrantes da Alemanha, antes de 1871, ano da unificação formalizada por Bismarck, referimo-nos às pessoas de fala alemã. Os passaportes da época registram a origem das pessoas como sendo da Prússia, de Schleswig-Holstein, Renânia, Hesse ou Pomerânia. Como todas falassem a mesma língua, a História só registra “alemães”. Mas isso não tira o mérito da imigração entre nós.

         Agora podemos perguntar – o que leva uma pessoa a deixar seu lugar de nascimento?

         Ora, com nossos imigrantes alemães houve, como em qualquer ser humano, o desejo natural de progredir,  visualização de novos horizontes em razão de situações existentes em sua terra natal.

         Na família alemã vamos encontrar o “Erbrecht” (morgadio), direito hereditário do filho mais velho. Como não houvesse mão-de-obra à disposição, eram comuns famílias com oito, dez ou mais filhos. A propaganda brasileira então feita na Alemanha deve ter produzido os efeitos desejados, já que muitos viam a grande oportunidade de terem suas terras próprias. E muita terra! Enfim, sessenta ou setenta hectares era muita terra. Não seria hora da realização de utopia de cada um? Outrossim, é preciso considerar que, ao tempo do início da imigração, a Alemanha saíra das Guerras Napoleônicas, que causaram uma devastação fácil de imaginar: lavouras destruídas seguidamente, moradias em chamas, mortes, dizimação da juventude masculina, a soldadesca deixando seus rastros junto ao elemento feminino… Quanto aos renanos, o maior número de imigrantes, suas terras sempre foram palco de lutas travadas ao longo do rio Reno, fato que pode explicar sua inquietação. Mais. A emigração começou em 1824, setenta anos depois da invenção da máquina a vapor, na Inglaterra, cujos efeitos técnicos começavam a se fazer sentir na Europa continental. A máquina dispensa mão-de-obra e a previsão de desemprego para tanta gente deve ter exercido sua influência sobre a emigração. Depois veremos que os artesãos, começando a perder suas oportunidades na Alemanha, foram aqui muito importantes, porque lançaram as bases da industrialização. Além desses fatores gerais, em cada região de onde provieram imigrantes com destaque para a Renânia, Vestfália e Pomerânia, havia fatores locais a influir na saída de seus filhos.

Razões da imigração no Brasil

         Por que alemães vieram ao Brasil?

         Quem sabia na Renânia que o Brasil existia?

         Onde ficava esse Brasil?

         Nos meios políticos e governamentais certamente o Brasil era conhecido porque a filha de Francisco II, último Imperador do Sacro Império Romano de Nação Alemã, ao mesmo tempo, Francisco I, primeiro Imperador da Áustria, da Casa dos Habsburgos, era casada com o jovem Imperador Pedro I, da Casa de Bragança. O nome dessa mulher ressoou e ainda ressoa no Brasil, mormente no sul, em virtude da imigração alemã. A arquiduquesa Leopoldina Carolina Josefa contraiu matrimônio com D. Pedro, apenas príncipe, no dia 13 de maio de 1817, por procuração, em Viena. Pelas descrições, Leopoldina não era um “monumento” de beleza, mas seria simpática, cabelos louros, olhos azuis, atenciosa, inteligente, cativante. Ela conquistou os brasileiros, que a consideravam uma “mãe”, como registram os livros. E quanto mais os brasileiros ficaram conhecendo seu Imperador, com todos seus pecados, tanto mais Leopoldina subia no conceito deles. É fácil imaginar que o fato de uma princesa germânica ser a Imperatriz do Brasil tenha dado ênfase à imigração. Leopoldina sabia que sua antepassada, Imperatriz Maria Teresia, havia colonizado terras ao longo do Danúbio, para impedir o avanço dos turcos em direção ao centro da Europa, com ameaça ao território austríaco. O Brasil vivia uma situação parecida no sul. Ali constantemente havia invasões e atividades bélicas para manter as fronteiras brasileiras. A colonização mais intensa daquele pedaço de terra poderia ajudar a manter o equilíbrio geopolítico. Na verdade, os açorianos, então “donos” do Rio Grande, eram, também, os “eternos vigilantes”. Afirmava-se que dormiam com um olho só; o outro estava sempre aberto para ver o inimigo chegar.

         Colonizar o sul. Mas onde buscar os colonizadores?

         É claro que não viriam portugueses, de quem o Brasil acabara de se emancipar. Espanhóis, nem pensar, porque eram os inimigos naquela região. Franceses também não, porque um dia haviam invadido o Rio de Janeiro, fundando a “França Antártica”. Ingleses também não, porque igualmente haviam tentado instalar-se no Brasil. Holandeses fora de cogitação, pois estiveram 24 anos no Nordeste. Alemães. Leopoldina era alemã. A Prússia, que depois integraria a Alemanha, tinha um exército reconhecido e admirado por D. Pedro I, cujas tendências militaristas eram conhecidas. O Brasil precisava de soldados, já que os portugueses, com a Independência, haviam voltado para Portugal. Quem defenderia o Brasil? D. Pedro I interessou-se por mercenários alemães e, provavelmente, para não ser notado esse “movimento militarista”, passou a contratar também colonos que ocupariam as terras sulinas.

         Para proceder adequadamente, foi enviado à Alemanha Jorge Antônio von Schäffer, preposto do Império. A missão de Schäffer, embora exitosa, teve muitos percalços. A Europa estava impedindo que soldados saíssem como mercenários. Quem desejasse emigrar, deveria renunciar à nacionalidade e apresentar provas de que o país destinatário lhe daria nova nacionalidade. Os países europeus queriam prevenir-se contra futuras responsabilidades.

         O governo brasileiro oferecia: passagem paga; concessão de cidadania; concessão de lotes de terra livres e desimpedidos; suprimento com primeiras necessidades; materiais de trabalho e animais; isenção de impostos por alguns anos; liberdade de culto.

         No Brasil há uma expressão popular que diz: “Quando a esmola é demais, o pobre desconfia”. É muito possível que alguém considerasse a oferta grande demais. Isso iria confirmar-se mais tarde, porque chegar ao Rio Grande, mais especificamente a São Leopoldo, e receber um lote de terras a 30 ou 40 quilômetros distantes da sede, sem estradas, sem escolas, na mata virgem, deve ter provocado muitas lágrimas. Com relação à liberdade de culto oferecida – o Governo deveria prever que entre os imigrantes haveria luteranos – era inconstitucional, porque pela Constituição Imperial de 1824 a religião católica era oficial. Outros credos poderiam ser praticados, em caráter particular, em casas sem aparência exterior de templo.

A Feitoria do Linho-Cânhamo

Antes de falar nos primeiros imigrantes alemães, torna-se necessário dizer alguma coisa sobre a Real Feitoria do Linho-Cânhamo.

         Feitoria era um estabelecimento do Governo. Linho-cânhamo é uma planta herbácea de pequeno porte, da qual são extraídas fibras utilizadas na confecção de cordas e de velas para barcos. Muito provavelmente Portugal possuía plantações que forneciam aquela matéria- prima para sua frota de veleiros pelo mundo a fora. Aqui, na Província de São Pedro do Rio Grande, fundou-se uma Feitoria em Canguçu, na região de Pelotas, bem no sul da Província. Como não deu resultados, foi fechada e transferida para o Faxinal do Courita, à margem esquerda do rio dos Sinos, onde sua instalação se deu no dia 14 de outubro de 1788. Como qualquer outra propriedade agrícola da época, lá estava a casa-grande, de pedra, centro das atividades e moradia do feitor ou outra autoridade da Feitoria. Nas senzalas moravam os escravos. Havia ainda os galpões para animais e depósitos diversos. A produção era transportada para Porto Alegre pelo rio dos Sinos, primeira via econômica da região do Vale. Mas, provavelmente por ser movida a braço escravo, a Feitoria não deu o resultado esperado, sendo desativada no dia 31 de março de 1824, portanto 36 anos após sua fundação. Nessa mesma data, o Presidente da Província recebeu comunicação da Corte, dizendo que em terras da Feitoria seria iniciada uma colônia com imigrante alemães.

A primeira leva de imigrantes

         Os imigrantes contratados por conta do Governo brasileiro por Jorge Antônio von Schäffer na Alemanha e componentes da primeira leva, depois de passarem pelo Rio de Janeiro, chegaram a Porto Alegre em 18 de julho de 1824. Seguindo instruções recebidas, o Presidente da Província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, encaminhou os imigrantes para a Feitoria desativada, à margem esquerda do Sinos.

         É fácil imaginar a viagem Sinos acima. Uma vegetação luxuriante, com árvores enormes e flores em profusão; muitos animais povoando as margens: jacarés, capivaras, ratões do banhado, fuinhas e, sem dúvida, alguma cobra deitada preguiçosamente sobre um tronco caído, ao vivo e em cores: garças, biguás, um mundo de pássaros coloridos. Numa palavra: um encanto! Um mundo novo à espera de quem fizera uma viagem de 12.000 quilômetros em busca de uma nova Pátria. Do rio, carretas de boi levaram os imigrantes até a Feitoria. Era o dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil, que viria a transformar-se na cidade de São Leopoldo. Reconhecida por todas as cidades de origem alemã no Estado, a data é festejada em todos os quadrantes.

São Leopoldo na atualidade
São Leopoldo no passado

         A primeira leva de imigrantes era formada pelas seguintes pessoas, num total de 39:

         Miguel Kräme e esposa Margarida, católicos.

         João Frederico Höpper, esposa Anna Margarida, filhos Anna Maria, Christóvão, João Ludovico, evangélicos.

         Paulo Hammel, esposa Maria Teresa, filhos Carlos e Antônio, católicos.

         João Henrique Otto Pfingsten, esposa Catarina, filhos Carolina, Dorothea, Frederico, Catarina, Maria, evangélicos.

         João Christiano Rust (Bust?), esposa Joana Margarida, filha Joana e Luiza, evangélicos.

         Henrique Timm, esposa Margarida Ana, filhos João Henrique, Ana Catarina, Catarina Margarida, Jorge e Jacob, evangélicos.

         Augusto Timm, esposa Catarina, filhos Christóvão e João, evangélicos.

         Gaspar Henrique Bentzen, cuja esposa morreu na viagem, um parente, Frederico Gross; o filho João Henrique, evangélicos.

         João Henrique Jaacks, esposa Catarina, filhos João Henrique e João Joaquim, evangélicos.

Hamburgo Velho no século Passado
Novo Hamburgo Atual
Escolinha Alemã

Em todas as colônias alemãs havia uma escolinha como esta da Picada Moinho, São Lourenço do Sul.

         Essas 39 pessoas, seis católicos e 33 evangélicos, são as fundadoras de São Leopoldo, nome e lugar então inexistentes, porque tudo se resumia à Feitoria do Linho-Cânhamo.

         É fácil imaginar o quadro na Feitoria com a chegada dos alemães.

         Um lugar nunca imaginado, gente de língua desconhecida e costumes estranhos. E por que tudo tinha um ar de abandono? Se a isso juntar-se um dia de inverno no Vale do Sinos com frio, cerração e umidade, a chegada deve ter causado impacto. Mas aquele dia ajudou a fazer um novo Rio Grande, razão para dividir-se sua História em “antes” e “depois” de 1824.

As entidades esportivas dos imigrantes alemães introduziram a ginástica em aparelhos. Na foto, atletas da Sociedade Ginástica de São Leopoldo

         Recebendo o nome oficial de “Colônia Alemã de São Leopoldo”, numa homenagem ao santo padroeiro de Leopoldina, o núcleo inicial, em poucos anos, estendeu-se por todo o vale do Sinos, já com milhares de imigrantes. O grande artífice da “Colônia Alemã” foi o Presidente José Feliciano Fernandes Pinheiro, que recebeu do Império, como era hábito a quem se destacasse, um título honorífico: Visconde de São Leopoldo, um nome invulgar nas páginas da História gaúcha.

         Ao escrever suas Memórias, no inverno de 1840, o Visconde referiu-se à “Colônia Alemã” com as seguintes palavras:

         “A fundação da Colônia Alemã de São Leopoldo é um dos fatos mais salientes de minha administração; e ser-me-á permitido confessar que muito me desvaneço de ver meu nome ligado a uma criação de resultados tão extensos, cuja realização promovi com máximo empenho. Por mim mesmo procedi ao exame e reconhecimento do local mais apropriado para assento da colônia; e assim passei os dias 13, 14 e 15 de dezembro de 1824, percorrendo todo o campo situado a um e outro lado do rio dos Sinos, pertencente à antiga Real Feitoria do Linho-Cânhamo. Organizei as instruções pelas quais se devia reger o inspetor interino, que nomeei; e a cada dia que passa, acrescenta a minha satisfação, assistindo ao reflorestamento e prosperidade deste auspicioso núcleo de colonização, o primeiro e mais importante do Brasil.”

         Entende-se, agora, por que o museu localizado em São Leopoldo e dedicado à imigração e colonização leva o nome do Visconde de São Leopoldo.

         A vinda dos imigrantes alemães mudou o visual do Rio Grande. Essas mudanças são de vária ordem.

         Na parte econômica, podemos referir que a produção agrícola em poucos anos floresceu, a ponto de a colônia abastecer a capital, Porto Alegre. Mais: ao lado do trabalho agrícola, os alemães também eram Handwerker, isto é, artesãos. Trabalhavam a madeira, o ferro, o couro, as fibras. Desse artesanato, na Alemanha, provieram muitos nomes próprios. Assim, Schmidt é ferreiro, Schuster, sapateiro; também Schuhmacher, sapateiro; Weber, tecelão; Zimmermann, carpinteiro; Schreiner, marceneiro; Schneider, alfaiate; Wagner, construtor de carroças; Müller, moleiro. Com seu trabalho, os artesãos formaram as bases da industrialização no Rio Grande. Não é para menos que o Vale do Sinos transformou-se numa extraordinária concentração industrial. Muitas grandes fábricas espalhadas pelas cidades de origem alemã começaram com um verdadeiro artesanato, em pequenas casinhas de porta e janela, onde tudo era feito à mão. Aurélio Porto, na importante obra O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, 1934, diz que a palavra serigote, um tipo de sela, provém do alemão. Os seleiros de São Leopoldo produziam bons produtos, adquiridos pelos gaúchos de Cima da Serra (São Francisco de Paula) como sendo sehr gut, isto é, “muito bons”. Desse sehr gut teria vindo a palavra serigote.

         Na parte cultural merecem citação muito especial as escolas. Não as encontradas aqui, os colonos as criaram para ensinar as crianças a ler, escrever e fazer contas. Assim surgiram as escolas de comunidade, em alemão Gemeindeschule. Não havia picada, lá no fundo do mato, onde não funcionasse uma escolinha. As crianças vinham de longe, até de um raio de 4 ou 5 quilômetros. Algumas vinham a cavalo. O material de aula era simples: a lousa, em alemão Tafel; o lápis de pedra, em alemão Griffel, e mais tarde a cartilha, em alemão Lesebuch. Aumentadas em número a cada ano e espaços, essas escolas garantiram a luz das letras a milhares e milhares de pessoas. Por volta de 1938 eram mais de mil escolas coloniais. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra o menor número de analfabetos na “Colônia Alemã”.

         Ainda na parte cultural, podemos dizer que os alemães têm um caráter muito associativo, isto é, gostam ou até precisam viver em grupos. O clima frio deve ter sua influência sobre tal comportamento. Já nos climas quentes as pessoas andam soltas, fora de casa, sem o aconchego  da lareira. A intensa vida em família e os encontros nos locais de lazer, nos clubes, fez surgir grupos de música, de teatro, de canto. Assim o canto coral, tão intenso em nosso Estado, a ponto de haver uma Federação de Coros, é uma das grandes heranças alemãs. Não há vila de origem alemã onde não se canta em grupos masculinos, femininos ou mistos. No mínimo, nas comunidades religiosas há um pequeno coro que abrilhanta os cultos, acompanha enterros ou alegra as festas de igreja.

         Disso decorre a importante contribuição alemã à vida associativa no Rio Grande do Sul. Isolados nas colônias, sua vida só podia ser igual à que levaram em sua terra de origem. A língua alemã era sua língua, mas aos poucos aprenderam a português e acabaram por germanizar muitas palavras, como

Carreta – carret

Laranja – range

Jararaca – scharak.

         Dessa junção lingüística resultou um dialeto local, ou seja, uma mistura do dialeto Hunsrück, trazido pelos imigrantes renanos, com o português.

         Trabalho, muito trabalho, de sol a sol, mãos calejadas, homens, mulheres e jovens tinham no domingo o dia especial de louvar e agradecer a Deus. Os cultos e as missas reuniam a todos. No fundo, isso constituía um grande encontro social, pois moravam afastados uns dos outros. Dessa necessidade de vida em sociedade e saudosos do lazer em sua terra natal, nasceram as sociedades que marcaram e ainda marcam a vida social em nosso Estado: Turnverein, Sociedade de Ginástica; Gesangverein, Sociedade de Canto; Schützenverein; Sociedade de Atiradores. Onde houver influência alemã, uma delas, quando não todas, são elementos importantes. Muitas delas são centenárias: Sociedade Germânia, Porto Alegre, 1855; Sociedade Orfeu, São Leopoldo, 1858; Sociedade Leopoldina, Porto Alegre, 1863; SOGIPA, Porto Alegre, 1867; Sociedade Atiradores, São Leopoldo, 1878; Sociedade Ginástica, São Leopoldo, 1885; Sociedade Aliança, Novo Hamburgo, 1888; Sociedade Atiradores, Novo Hamburgo, 1892; Sociedade Ginástica, Novo Hamburgo, 1894; Sociedade de Canto União, Estância Velha, 1894. Deve haver outras centenárias que não são de nosso conhecimento.

         Escolas, sociedades, grupos de amparo mútuo, mais tarde hospitais, tudo mostra a maneira de viver em sociedade, isto é, associativamente, dos imigrantes e seus descendentes. Há ainda um outro aspecto marcante desse espírito.

         Os padres jesuítas alemães, chegados em São Leopoldo em 1859, e de larga atuação pelas colônias, reuniam os colonos em agrupamentos chamados também de Verein. O Bauernverein, Sociedade de Agricultores, foi uma delas, com grande influência na formação dos colonos. Em 1912 foi fundado o Volksverein, Sociedade União Popular, ainda hoje existente, com sede em Nova Petrópolis. E um religioso jesuíta, Theodor Amstad, foi o idealizador de um sistema de poupança chamado Raiffeisen, através das Caixas Rurais.

A expansão dos núcleos coloniais

A “Colônia Alemã de São Leopoldo” se estendia de Sapucaia do Sul, ao sul, até o Campo dos Bugres, hoje Caxias do Sul, ao norte; de Taquara, ao leste, até Montenegro, a oeste. Eram as grandes terras formadas pelos rios Sinos e Caí. Com a vinda de mais imigrantes, surgiram novos núcleos nos vales do Rio Taquari (Estrela, Lajeado, Teutônia e outros), dos rios Pardo e Pardinho (Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Candelária), no sul do Estado (São Lourenço do Sul). Os núcleos aqui citados e outros em suas imediações são chamados de “segunda geração”. No fim do século passado e começo do atual, entra em cena a “Serra”, com Ijuí, Santa Rosa, Panambi, Cerro Largo e dezenas de outros municípios. Aliás, os imigrantes, a partir de 1824, e depois os descendentes em terceira, quarta e quinta gerações, fizeram uma verdadeira marcha pelo Brasil. Atravessando o rio Uruguai, ocuparam o oeste catarinense, depois o oeste do Paraná, o Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e hoje já alcançaram Rondônia, onde olhos azuis e cabelos loiros mais a língua alemã falam do Rio Grande do Sul com saudade enquanto tomam o inseparável chimarrão.

         Não é de se estranhar, portanto, que todos esses lugares e dezenas de outros apreciem a música de bandinhas, a galinha assada no formo, a assado de porco, a verdura, o chucrute ou Sauerkraut, a salsicha, o pão de centeio, a cerveja. Coisas do gosto de todos, pois quem é que não gosta de uma comida colonial?

Cozinha Colonial

         Afirmações como “o amor passa pelo estômago” devem ser comuns a todas as sociedades humanas. Assim, com a cozinha alemã não deve ser diferente, pelos pratos que fazem a delícia de muitos.

         No começo da colonização não deve ter sido fácil para os imigrantes a adaptação aos diferentes locais, já que os seus próprios viriam somente com o correr do tempo. Assim, aipim, batata-doce, feijão preto, pão de milho, beiju e outras iguarias devem ter encontrado resistência natural.

         Aos poucos, a cozinha alemã foi tomando pé e hoje se festeja um assado de porco, uma galinha recheada, um chucrute, uma salsicha bock, um pirê de batata, um prato de verdura ou as inigualáveis sobremessas, cucas e tortas. A palavra “Apfelstrudel” produz água na boca. Hoje temos restaurantes especializados em comidas alemãs. E se for regado com uma cervejinha ou um chope, então não falta mais nada.

         A esta altura do texto, pelos 180 anos de imigração alemã, façamos um brinde como sempre se fez na colônia alemã – Prosit! ou Prost!, isto é, Saúde!

A nacionalização

         A década de trinta, neste século, marcou momentos difíceis para a “colônia alemã”. Foi a época das grandes ditaduras: Salazar em Portugal, Mussolini na Itália, Stalin na Rússia, Hitler na Alemanha, Vargas no Brasil. Todas as ditaduras têm muita coisa em comum: vivem da centralização do governo, tudo fazem para espalhar sua influência, perseguem pessoas que não lhes são dóceis, impõem seus métodos e chegam ao extremo de liquidar pessoas, caso entendam necessário. E tudo isso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

         A ideologia hitlerista teve muitos adeptos em vários países. No Brasil, o ditador Vargas era inicialmente um dos simpatizantes. A “colônia alemã”, não só no Rio Grande do Sul, como também em outros Estados, sofreu a influência de agentes alemães que procuravam expandir o nazismo, encontrando simpatizantes e alguns adeptos. Mas daí a concluir, como se afirmava, que “os colonos alemães eram nazistas”, vai uma imensurável distância. Situação idêntica passaram os colonos italianos em relação ao fascismo.

Monumento do Centenário da Imigração Alemã erguido em 1924. É um marco de São Leopoldo.

         Procurando contrabalançar a propaganda hitlerista, o governo Vargas fez uso de uma estratégica chamada “Nacionalização”. Através dela o governo tencionou minimizar a eventual influência germânica de caráter político. Como em todos os movimentos desse gênero, houve acertos e exageros. Quem sabe, mais exageros do que acertos. Se de um lado pretendia integrar mais rapidamente e melhor os descendentes de alemães, atitude até louvável, por outro não se pode esquecer que o governo, desde o início da colonização, pouco ou nada fez para essa integração por via natural, isto é pela absorção dos imigrantes com o correr do tempo. Na verdade, os colonos se viram obrigados a fazer insistentes pedidos para verem atendidas as suas reivindicações. A construção e o conserto das estradas era demorado e havia pouco interesse em saber como os colonos viviam lá no fundo das picadas, com dificuldades de comunicação e problemas de saúde pública. Como o governo não abria escolas, elas eram feitas pelas próprias comunidades, como é próprio do espírito germânico. A nacionalização proibiu o uso da língua alemã, os jornais e outras publicações em língua alemã, proibiu cultos em idioma alemão e as reuniões nas sociedades, cuja administração deveria ser toda em português. E mais: lançada a suspeita a todos os professores – eram mais de mil entre católicos e evangélicos – foram fechadas escolas por todos os recantos. Como o governo não tivesse condições de absorver todos os alunos imediatamente, é fácil compreender a situação caótica então criada.

         Espalhando alegria com bailes, festas, teatros e canto, as sociedades ficaram caladas. O medo instalara-se na colônia. Por natureza, o colono já mantinha certa reserva. Agora mais ainda. Mesmo assim, ninguém deixava de cumprir fielmente seus deveres, com o pagamento dos impostos rigorosamente em dia. Mais um elemento sofreu durante a nacionalização: as tradições, que, como se lê num Centro de Tradições Gaúchas (CTG) de São Leopoldo, “são a alma de um povo”. Esta alma foi contestada e os colonos e até moradores das cidades abandonaram as danças típicas, deixaram de cantar na língua dos antepassados, o kerb perdeu sua beleza, a Festa dos Atiradores ficou prejudicada. Uma geração inteira perdeu suas raízes. E isso é grave porque o homem precisa saber quem é, de onde veio e para onde vai. Caso contrário, fica solto no espaço, sem identidade. O desaprendizado da língua foi uma perda irrecuperável. Durante a Segunda Guerra esse quadro acentuou-se. Só depois dela, aos poucos, a vida na colônia voltaria a se aproximar do ritmo antigo. Hoje a língua alemã é ensinada também em escolas públicas e as bandinhas fazem a alegria de quantos gostam do lazer da colônia.

         Águas passadas não movem moinho, diz um ditado popular.

         O que passou, passou, mas é bom reconhecer que muitas autoridades, no interior, agiram de modo comedido porque conheciam a comunidade onde atuavam e sabiam que ali havia bons brasileiros, cujo “pecado” era a sua descendência alemã. Infelizmente, os poucos propagandistas de ideologia estranha, que motivou tudo isso, não pagaram sozinhos pelo que fizeram.

         Problemas à parte, o importante é que hoje, até pela situação geral no mundo, com a queda de tradicionais barreiras entre os povos (basta lembrar o Muro de Berlim), as ditaduras estão varridas e há um sentimento de fraternidade bafejando a todos. No Rio Grande do Sul, a cultura alemã voltou a ocupar seu espaço: grupos de danças existem às dúzias; as bandinhas com instrumentos de sopro voltam a tocar velhas músicas alemãs; a língua alemã é hoje uma necessidade em termos de ligações com a Europa. Novas fábricas, filiais de matrizes alemãs, contribuem para nossa economia. Na UNISINOS, em São Leopoldo, funciona o Instituto de Formação de Professores de Língua Alemã (IFPLA). Uma nova situação promovida por gente culta, inteligente, respeitosa.

         Tudo isso vem a propósito dos 180 anos de imigração alemã, que, euforicamente, foi festejada no dia 25 de julho de 2004. Olhando a programação geral elaborada pela Companhia Rio-Grandense de Turismo (CRTur) para marcar tão importante data, vê-se que pelo Rio Grande afora há muitas atividades sociais, culturais e outras ligadas à economia com as quais cada lugar prestará sua homenagem aos antepassados. Cabe, pois, agora, transcrever a inscrição no monumento do centenário da imigração, em São Leopoldo:

“Den Vätern zum Gedächtnis”

Em memória de nossos antepassados.

Figuras ilustres

Breve relação de nomes ilustres de alemães ou de descendentes, já falecidos, que se destacaram em diversos setores da vida gaúcha, anotados ao correr da máquina.

Colonização

Johann Daniel Hillebrand, Peter Kleudgen, Jacob Rheingantz, Hermann Faulhaber

Política

Arno Phillip, Guilherme Gaelzer Neto, Lindolfo Collor, Alberto Bins, Wolfram Metzler, Egidio Michaelsen, Siegfried Heuser, Wilhelm von Ter Brüggen, Edgar Luiz Schneider, Jacob Kroeff Neto, Frederico Linck, Edmundo Bastian, Bruno Born, Antônio Campani, Albano Volkmer, Gastão Englert

Jornalismo

Karl von Koseritz, Hugo Metzler, Franz Metzler, Caesar Reinhardt, Germano Gundlach, Ulrich Löw

Ensino

Emilio Meyer, Augusto Geisel, Luiz Englert, Hans Grimm, Mathias Schütz, Theodor Grimm

Economia

Otto Ernst Meyer/VARIG, Antonio João Renner, João Wallig, João Gerdau, Frederico Mentz, Bopp, Sassen, Ritter/Continental, Alberto Bins/BERTA, Jacob Blauth, Jacob Becker, Jacob Arnt, Jacob Michaelsen, Carlos Trein F°, Luis Rau, Emil Schenk, J. Aloys Friedrichs, Pedro Adams F°, Ernesto Neugebauer

Ciência

Pe. Balduino Rambo SJ, Hermann von Ihering, Rudolf con Ihering, Pe. Aloisio Sehnem SJ, Alarich Schulz

Religião/Ensino

Pe. Ambrosio Schupp SJ, Pe. Carlos Teschauer SJ, Pe. João Batista Hafkemeyer SJ, Pe. Luiz Gonzaga Jaeger SJ, Pe. João Rick SJ, Pe. Urbano Thiesen SJ, Pe. João Batista Reus SJ, Pe. Werner von und zur Mühlen SJ, Pastor Wilhelm Rotermund, Pastor Hermann Dohms, Pastor Karl Gottschald, Pastor Karl Hunsche, D. João Becker, D. Vicente Scherer

Letras

Augusto Meyer, Walter Spalding, Clodomir Vianna Moog, Erich Fausel, Pe. Mathias Gansweidt SJ, Robert Avé-Lallement

Esporte

Willy Seewald, Júlio Kunz, Celso Morbach

Arte

Pedro Weingärtner, José Lutzenberger, Max Brückner, Léo Schneider, Roberto Eggers, Samuel Dietschi, Herrman Rudolf Wendroth, Max Maschler

Arquitetura/Engenharia

Josef Grünewald, Theo Wieder-spahn

Bibliografia

Pequena listagem de livros que tratam da imigração e colonização alemãs sob vários aspectos.

Anais, Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul, São Leopoldo, volumes I, II, III, IV, V e X.

Becker, Klaus. Alemães e Descendentes na Guerra do Paraguai. Canoas: Hilgert, 1968.

___. Enciclopédia Rio-Grandense. Porto Alegre: Sulina, 1968.

Bento, Claudio Moreira. Estrangeiros e Descendentes na História Militar do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação DAC/SEC, 1976.

Coaracy, Vivaldo. A Colônia de São Lourenço e seu Fundador Jacob Rheingatz, São Paulo: Saraiva, 1957.

Comissão do Sesquicentenário da Imigração Alemã/Álbum Oficial. Porto Alegre: Edel, 1974.

Dreher, Martin N. Igreja e Germanidade. Porto Alegre: EST, 1984.

Flores, Hilda. Memórias de um Imigrante Boêmio. Porto Alegre: EST, 1981.

Fouquet, Carlos. O Imigrante Alemão. São Paulo: Instituto Hans Staden, 1974.

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Hunsche, Carlos Henrique. O Biênio 1824/25 da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: A Nação, 1975.

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Kipper, Maria Hoppe. A Campanha de Nacionalização em Santa Cruz. Santa Cruz do Sul: AESC, 1979.

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Lemos, Juvêncio Saldanha. Os Mercenários do Imperador. Porto Alegre: Palmarinca, 1993.

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Verband Deutscher Vereine (Federação das Sociedades Alemãs). Hundert Jahre Deutschtum in Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Tip. do Centro, 1924.

Visconde de São Leopoldo. Anais da Província de São Pedro. Rio de Janeiro: INL, 1946.

Weimer, Günter. Arquitetura da Imigração Alemã. Porto Alegre: UFRGS, 1983.

*O prof. Telmo Lauro Muller é diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo – www.museuhistoricosl.com.br


Fonte: http://www2.brasilalemanha.com.br/1824_antes.htm